Eu me lembro de acordar de manhãzinha e sentir seu braço pesando em minha cintura. Era quase como sonhar... Eu gravava os seus traços em minhas retinas e quase podia contar seus cílios. A ponta dos meus dedos corria pelo seu rosto em segredo, sentindo cada milímetro de pele. A sua boca vermelha, mesmo ali quieta, ia me chamando... E eu a beijava, tendo o cuidado de não te acordar. Você se mexeu um pouco e o braço em volta de mim, puxou meu corpo pra um pouco mais perto. O seu rosto de encontro ao meu e eu ouvindo você respirar... Não queria mais dormir, queria continuar vivendo meu pequeno momento de encanto, mas isso é bobagem. Quando acordasse outra vez, continuaria sonhando, só que então seria me perdendo em seus olhos.
A cidade vista de cima, o chão visto de cima... E perto, perto, cada vez mais perto, rente à pele... E uma garota acordando a noite, assustada. O corpo tremendo embaixo das cobertas e dentro do abraço apertado da namorada que dormia tão profundamente que não pode notar. Ela procurou pelo celular e viu que já eram quatro da manhã. Foi se levantando com cuidado pra não acordar o pequeno corpo ainda adormecido e aconchegado às muitas cobertas.
Com um pouco de sorte, achou café na garrafa térmica. Encheu um copo, acendeu um cigarro e se sentou no peitoril da janela pra observar a cidade. Essa noite ela estava anormalmente quieta, tudo o que se ouvia era o vai e vem dos carros na avenida logo abaixo.Ainda assim aquela visão cheia de luzes sempre trazia calma, mas parecia que o sono havia sido espantado pra longe demais dessa vez. Resolveu se servir de algo mais forte pra tentar relaxar... Na geladeira, uma garrafa de vinho tinto pela metade. Serviu uma dose generosa e voltou a observar a calmaria.
A essa altura não era o sonho ruim que a mantinha acordada, estava imersa em seus próprios pensamentos. A vida era boa, ela estava exatamente onde esperou estar a vida toda. Tinha tudo o que desejava ter e não precisava de ninguém pra isso. Tinha construído a fortaleza segura dos sonhos da adolescência e amadurecido com os trancos do caminho. Então porque o buraco no peito? Era um buraco tão fundo que não se podia ver o que estava dentro. Ela só sabia que pesava tanto que já não carregava e sim o arrastava.
O telefone tocou as quatro da manhã e a arrancou de dentro dos pensamentos com um susto grande. Ela olhou o identificador e o frio na barriga foi inevitável. Já fazia tanto tempo que se assustou de ainda ter aquele número gravado na agenda e mais ainda por estar recebendo aquela chamada, mas atendeu sem nem mesmo entender porque.
-Oi.
-Oi, não esperava que você atendesse.
-Então por que ligou?
-Não sei, talvez parte de mim quisesse mesmo ouvir você...
-Ta, mais alguma coisa?
-Na verdade muitas coisas... E eu quero que você só me escute. Faz tempo e talvez eu tenha esperado muito, mas isso também foi bom pra eu ter certeza de todas as promessas que eu fiz pra você um dia. Eu vivi a minha vida, mas nada foi igual ou teve o mesmo gosto. Faz tempo que eu percebi que era mesmo você e que ninguém poderia ocupar o vazio que deixou em mim, mas persisti... Acho que por falta de coragem, não sei! Mas hoje eu resolvi testar a minha sorte e ligar pra dizer que eu ainda te amo... Eu ainda quero ter a minha vida do seu lado.
-É... Tem razão, você esperou muito.- E desligou o celular.
Quase que imediatamente o coração apertou e seus olhos se fecharam deixando cair duas lágrimas sentidas. Apertava tanto o peitoril da janela a procura de apoio que os nós dos dedos estavam brancos e ela tentava não fazer barulho. O choro que lavava seu rosto agora era do pior tipo, daqueles que você nunca vai poder dividir com ninguém. Ela detestava chorar, mas a tortura era maior que as forças que ela tinha. Sabia que tinha tomado a decisão certa, mas havia um talvez... Talvez tivesse acabado de jogar a própria felicidade por aquela janela.
Já estava mais calma quando voltou para o quarto. O dia estava nascendo e da porta do quarto ela pode ver o corpo da mulher que dormia sozinha sem saber de nada do que havia acontecido. Talvez ela nem tivesse percebido a ausência dela na cama. Deitou, abraçou a pela cintura e tentou voltar a dormir. Pela manhã a única coisa que havia mudado era que agora sabia exatamente as feições, o nome e o número do telefone do peso dentro do buraco.
Ela se sentou no sofá da sala, colocou as pernas pra cima e segurou um copo de chocolate com as duas mãos esperando que ele as aquecesse. Olhando pela janela, via os tons pálidos de um outono mais frio do que o normal, mas ainda assim incrivelmente lindo. Talvez ele estivesse enfeitado pelos olhos dela.
Na TV só o normal de domingo à noite, então colocou música pra ouvir. Era uma daquelas canções despretensiosas que chegam e te pegam de assalto, ainda que você já as conheça. Cantarolou um ou dois versos e sorriu imersa em pensamentos resgatados de um canto quente do próprio coração.
Ela foi se ajeitando embaixo de um cobertor e fechou os olhos. Era incrível, podia até sentir o cheiro doce de um perfume que conhecia muito bem.
O celular tocou num canto e ela correu até ele. Era uma mensagem que dizia: “Já falei hoje que eu te amo?”. Uma frase curta que teve o poder de aquecer seu corpo todo, preenchendo-o com a mais doce sensação de felicidade. Algumas palavras que trouxeram a primavera até aquela pequena sala e fizeram com que se sentisse sob o céu de Paris. E ela respondeu: “Ainda não...”.
Tornou a se jogou no sofá e ficou lendo e relendo, sentindo aquela sensação gostosa na barriga, que lembra mil borboletinhas batendo assas. O dia tinha mudado, o sabor das coisas muda mesmo quando a gente ama. E foi pensando assim que caiu no sono, ali mesmo.
Três batidas na porta da frente foram suficientes para que despertasse do sono leve. Levantou cambaleando e foi ver quem era. Quando a porta se abriu a primavera se tornou verão quente e a luz do sol vinha do sorriso da outra garota de pé na porta. A mão dela veio até seu rosto e os dedos estavam frios, mas ela não se importou. Os corpos se encontraram num abraço carregado de significado mudo e eles ficavam bem assim, amorosamente encaixados. E os corações que pareciam esperar tanto por aquele momento podiam bater compassados agora.
Esse silêncio breve foi rompido por um sussurro mágico: ‘Eu vim pra te dizer o quanto é importante você saber que eu te amo”.
Ela me traz a paz de sorrir sem motivo algum e o desassossego de não tê-la por perto as vinte e quatro horas do dia. Ela olha rente a minha pele e me invade pelos olhos com facilidade que assusta. Vai arrancando deles meus segredos escondidos nos cantos escuros e colocando só o rosto dela no lugar. E aos poucos vai me mostrando que a saudade que eu carregava tinha o nome dela, antes que eu a conhecesse. Ela vai me tocando o corpo e fazendo com que me acostume às suas mãos e sinta falta de um pedaço meu quando não está aqui. Vai me tirando a prudência, aquietando os medos e fazendo esquecer das dores que eu sentia. Ela sabe fazer o mundo parar quando sorri e tornar a girar quando me beija. Ela sabe fazer faltar o ar com uma lembrança e acabar com a gravidade com duas ou três palavras. Alguém me prenda no chão! Eu estou me apaixonando outra vez...
Vamos, abra os braços, feche bem os olhos e confia em mim. Balança seu corpo pra frente, deixa que ele caia devagar, eu vou estar do seu lado. O vento vai vir cortar seu corpo, mas nem mesmo ele será capaz de mudar sua direção agora. Prometo que não vai fazer diferença... O homem que espera o metrô vai continuar lá, crianças ainda vão sorrir e o sol ainda vai vir pela manhã. O caminho até o chão é curto, mas não quero que tenha medo dele. Não há como prever o que vai acontecer, só esperar que no caminho você aprenda a voar. E que o sopro quente embaixo das suas asas feitas de coragem sejam os seus sonhos inconfessáveis. Eles vão te levar pra longe, pra dentro da imensidão de tudo o que teme. E eu só quero que traga de lá o seu medo de ter medo e o de nunca arriscar.
Ela vinha carregando as sacolas pela rua, com o olhar perdido e ares de felicidade. Passos que por bem pouco não pareciam pequenos saltos de alegria. Abriu o portão do condomínio e cumprimentou uma velhinha sorridente que caminhava por ali. Entrou no prédio, ganhou as escadas e seguiu até o fim do corredor. Apoiou as sacolas no chão e começou a procurou as chaves do apartamento.
Quando a porta se abriu, não tinha quase nada pra ver. Um grande colchão de ar, muitas caixas espalhadas, notebook, televisão, som e discos. Ela passou direto pela sala e deixou as compras na cozinha. Logo no corredor, começou a arrancar as peças de roupa do corpo e foi largando pelo caminho até o banheiro. E não pode conter a gargalhada quando percebeu que estava realizando um pequeno sonho. Ligou o som e acompanhou a canção em voz alta... “Here I am and I stand so tall, just the way I’m supposed to be.” Foi até o banheiro tomar banho com as portas abertas.
Saiu de lá em vinte minutos, vestiu algo confortável e só então foi pensar nas sacolas em cima da pia. Guardou algumas coisas na geladeira e preparou café fresco.
Apanhou um livro no chão, se deitou no colchão e começou a ler: “Se pode me prometer algo prometa que... sempre que você se sentir triste ou insegura... ou que sua fé vacilar... você vai tentar olhar pra si mesma com meus olhos. Obrigado pela honra de tê-la como esposa. Não tenho do que lamentar. Tenho muita sorte. Você foi minha vida, mas eu sou apenas um capítulo da sua. Haverá mais. Eu prometo...”. O resto da página se perdeu num sonho confuso.
Caminhava em direção à porta e quando passava por ela, sentia areia fina nos pés. O corredor era substituído por uma imensidão de água do mar, avermelhada pelo sol que se punha à frente. Ela se sentou pra observar o brilho na superfície da água pensando que aquele não era um sonho pra se ter sozinha. E como se alguém ouvisse esse pensamento, veio a menina de cabelos curtos caminhando com um sorriso em sua direção. Pronto! O sonho piegas perfeito. Mas antes que elas se encontrassem, o sonho foi interrompido por uma nota um pouco mais alta de alguém que cantava pras paredes da sala.
Sorriu, passou a mão nos cabelos e correu os olhos pelo bagunça que ela mesma fizera. Aquele lugar, aquelas caixas, espaço e tempo eram seu maior sonho real. Mas esse também era um sonho pra não se ter sozinha, pena que acordada seu pensamento não tivesse poder de realizar certos desejos.
Apanhou o computador e escreveu: “Quanto tempo sem te ver... Acabei de sonhar com você outra vez. Tô deitada na sala do apartamento novo agora. Isso aqui ta a maior bagunça rs. No final das contas eu não sei mesmo me virar sozinha... Tá faltando a sua paz pra me acompanhar...” E enviou. Não tinha nada pra perder mesmo. Quem sabe o mar adentrava a porta da sala.
O telefone tocou às duas da tarde. Era a voz de um amigo me convidando a passear pela noite, acender risadas e beber alegria, como quando éramos mais jovens e despreocupados. O engraçado é que isso não fazia muito tempo. Coloquei o telefone no gancho e saltei do sofá com alegria, cheia de esperança pela noite fantástica que certamente viria. O problema é que eu não sabia o que vestir.
Fui até o quarto e abri as portas do guarda roupa disposta a arrancar dele algo descente pra que eu pudesse vestir. Meu sorriso animado sumiu quando contemplei a desordem natural dele. Fui puxando peça por peça e o que desagradava ia pro chão.
Quinze minutos e nada... O guarda roupas quase vazio e eu constatando a necessidade de roupas novas. Foi então que puxei do fundo da bagunça uma camisa azul escura. Aquela mesma que eu havia escondido. Meus olhos fecharam e eu a trouxe até o nariz sem pensar, mas logo a abaixei, pois o cheiro que procurava já havia se perdido. Eu a abri na minha frente e foi como se eu pudesse reviver o dia em que eu mesma a arranquei do seu corpo. Foi como sentir novamente a luz que saia dos seus olhos, que me refletia dez vezes mais bonita do que sou, tornar a cair sobre mim.
Eu pude lembrar de cada uma das promessas que hoje só servem pra te desconcertar, mas elas são tudo o que eu ainda sei sobre nós (mesmo que por vezes eu queira duvidar) junto com todas as coisas que não faremos, embora eu ainda esteja atada a você com nós cegos feitos pelos meus desejos insufocáveis, egoístas e cheios de amor.
Eu corri os dedos pelo pano, mas o que eu sentia nas pontas deles era o toque da sua pele e a recordação do calor do seu corpo. Também veio a saudade da calma do seu abraço e das suas mãos correndo pelo meu rosto, desenhando os meus contornos. De olhar no fundo dos seus olhos e ouvir aquele “eu te amo” que vinha como uma onda colorida, quebrava no meu peito e fazia com que sentisse vida neste corpo. E de sentir os ecos de felicidade retumbando dentro de mim enquanto diziam “eu também, eu também... eu também”.
Aos poucos, meus olhos tornaram a recobrar o foco e encarando aquele pedaço de pano, que mais parecia um pedaço seu deixado pra trás. Eu sorri, embolei e tornei a atirar no fundo do guarda roupas. Peguei o primeiro jeans ao alcance, uma camiseta preta e calcei meus all stars inseparáveis. Maquiei o rosto com o cuidado de sempre e dei um jeito nos cachos dos cabelos. Peguei o celular e as chaves, apaguei as luzes e tranquei a porta me perguntando se um dia teria coragem de me livrar daquela camisa de vez.
Preciso poder permanecer triste por incontáveis dias sem ter que me fazer entender, não estar feliz pelo simples fato de estar. E me cansar, zombar da sua vida por não ter controle sobre ela. Será querer demais?
Quero ir pro lado errado e rir na cara do aviso, gritar sem me esconder. E ficar por perto sem você me ver, confiar em tudo o que for novo sem nunca ter certeza. Será pedir demais?
Tenho que saber quantos passos ainda posso dar além de toda a loucura que já cometi, pra que longe os desejos do seu coração vão me levar pra eu te ver feliz, até onde eu suporto respirar sem viver. Será poder demais?
Um dia decidi seguir e ir buscar meus sorrisos em lugares distantes dos que você costumava caminhar.
Corri por todas as estradas tortas que pareciam não ter fim e hoje tenho mil histórias pra contar sobre o que pode ser o amanhã. Mas só o que eu quero te dizer é que ele realmente não importa, assim como “o que está feito, está feito”.
Escrevi incontáveis linhas sobre saudade e isso funcionou por algum tempo, até que eu passei a precisar do que estava dentro delas. E não foi difícil buscar, já que sempre esteve por perto e podia me sentir de alguma forma.
E mesmo que ninguém entendesse, eu tinha paz na sua felicidade e você sorria com a minha. Aprendi a ler os seus gestos e você descobriu quem sou eu, juntas construímos uma casinha amarela com janelas e portas vermelhas pra que a nossa amizade pudesse morar. Foi mais que amor e nada que eu vá conseguir explicar. Era algo que me permitiu ter o que sempre quis livre no vento e preso nos versos das nossas canções.
É verdade que eu andei pra longe e que, mesmo no longe, você está e ainda posso ver todos os meus sonhos desenhados em castanho escuro, dentro da íris dos teus olhos. Ah! Não sei se é certo, mas já me sinto contando os passos de volta pro seu coração.
Deitada naquela cama, ela parecia uma garotinha agarrada aos muitos travesseiros. Ela os usava pra preencher os espaços enormes deixados por um outro corpo. Os espaços que tornavam aquela cama grande demais para que se deitasse sozinha.
Os olhos castanhos fora de foco pareciam ver algum lugar no passado. Aquele numa sexta feira, sol poente, a janela do carro aberta, cabelos castanhos brincando no vento, um sorriso lindo e uma canção qualquer.
Ás vezes pensa que deixou de ser tudo o que desejava, que não sentia dor ou saudade porque sua alma não estava mais com ela havia um tempo. Tinha ido pra longe, devolver todos aqueles sentimentos. Pra ela, que sempre foi coração, era estranho não sentir nada, mas talvez tivesse restado a falta pra acompanhar e fosse a voz gritando em seus ouvidos que a mulher que ela ama não iria voltar.
Aos poucos, se convencia de que a porta estava mesmo fechada e a voz do outro lado do telefone nunca fosse a chamar de volta. Em alguns momentos, apertava os olhos e os travesseiros e se perguntava o porque de não se levantar e tentar trazer outra vez pra casa tudo aquilo que sempre foi tão bom, aqueceu e a levou pra tão longe... De onde ela jamais soube voltar. A resposta que vinha de sua própria boca era sempre a mesma: “talvez eu não valha a pena...”. E nessas horas ela chorava.
As feridas sempre se fecham no final das contas, mas não era isso que queria. Talvez porque soubesse que não haveria ninguém pra ocupar aquele lugar. E porque com aquela mulher tivesse sentido tantas coisas que o amor promete, pela primeira vez. Talvez porque ela ainda acreditasse que o mundo pode girar e que assim os dois corações pudessem voltar a bater no mesmo compasso. Ou por covardia mesmo.
A única certeza que carregava era a de que uma hora ela ia ter que sair daquele quarto, encarando a porta ou fugindo pela janela.
A primavera passa e leva com ela o brilho cansado das flores que resistiram à força da chuva, fria e pesada. Um campo de Lírios com mil desafios a perecer. As pétalas que secam caídas ainda parecem tão belas. Deve ser porque elas não se importam de morrer. É certo que o calor virá, as plantas vão secar, o chão vai congelar... Mas a primavera sempre volta com a promessa que as fará renascer.
É como falar dos que querem sentir. Dos que irão cair centenas de vezes por acreditar. Os entrelaçados tão fortemente ao amor que são fadados a viver como metade. Dos que esperam sufocados e de não caber em si, vivem no outro como eterno versoapaixonado. Os que o amor não pode matar, mas acompanha e fere como dor. Os destinados a ser flor, como eu.
O Tempo vem e leva tudo, dele nós sairemos mais fortes e essas parecem as palavras de um poeta. A verdade é que andei de encontro ao tempo desde que tenho memória e de cada batalha, como a de agora, um pedaço meu fica e deixa que a dor me siga. Retalhos de alma que são como sementes de esperança que jamais puderam germinar. Um passado que se mantém seguro e eterno. Que guarda as promessas de um futuro que jamais poderá existir, mantém as incertezas do “se”, as tristezas do que não foi dito e os arrependimentos pelo o que não foi feito. É verdade que tempo passou e eu deixei de esperar, deixei de querer, de procurar, por vezes até mesmo de amar. Assim como também foi verdade que não me tornei mais forte, apenas aprendi a viver com o que me falta. Aprendi a conviver com o que eu mais temia e agora ecoa no silêncio desse quarto vazio. Mas apesar das feridas, não sinto medo de me lançar no desconhecido que me levará ao futuro, pois sei que ele é a única arma que sempre poderei empunhar contra o passado que um dia com certeza se tornará. E se não der certo e o fracasso voltar a me puxar pelos calcanhares de volta aos abismos do meu peito, a dor virá me cortar em muitos outros pedaços, mas sempre vou saber que esse é o preço que pago por não saber caber em mim.
A realidade tem se deitado ao meu lado a noite. Por vezes ela aperta o meu pescoço, tentando estrangular as minhas palavras, os meus sentidos, sufocar meus sentimentos... Fazer ceder os meus joelhos e meu coração. Ela me diz aos ouvidos que pise no chão e me desfaça do abraço que dou aos meus anseios mais queridos, ainda que distantes do meu braço esticado. Ela quer que eu sinta a aspereza do caminhar e que eu suje meus pés com ele. Pede que eu abra os olhos e conheça a dor, a desilusão... Que aprenda a querer e a desistir, mas isso não seria um paradoxo? E sempre digo “hoje não...”, os dedos finos e frios se afrouxam e ela me deixa pela manhã. Então eu me levanto descalça e deixo que meus pés percorram as nuvens dos sonhos.
Hoje quando cheguei em casa me recusei a abrir as contas atiradas por sobre a mesa. Tirei as roupas e espalhei por um ou dois cômodos da casa, entrei no primeiro moletom que encontrei. Fui pra cozinha fazer macarrão instantâneo pro jantar. Ai pensei “Quer saber? Vou deixar o gás ligado...” Nem me preocupei em lavar os pratos. Fui pra sala me atirar no sofá e procurei um jogo de futebol pra ver. Eu comecei a chorar lágrimas copiosas novamente, mas dessa vez foi de raiva. Gritei, esperneei até me convencer de que você mentiu, de que fui boba por acreditar que algo existiu...
Quis ligar o computador e apagar todas as fotos, todas as frases, os e-mails e te limar dos meios de comunicação, apesar de o risco de você me procurar ir contra todas as previsões, mas deixei isso pra um outro dia. Coloquei a primeira play list que encontrei pra tocar e ela tinha todas as musicas que eu cantei pra você, todas as que eu tenho que esquecer e talvez eu apague algumas depois.
Apanhei o celular na mochila jogada no hall, liguei pra uma amiga que você detesta, depois pra outra de quem você costumava ter ciúmes. Han! como se fosse te castigar... Desliguei o celular e o coloquei fora do meu alcance. Bebi todas as cervejas da geladeira e pensei bastante em abrir aquele vinho caro que guardei pra abrir com você numa data especial.
Eu escondi aquela foto sua que ficava na cômada e me saudava todas as manhãs dentro da primeira gaveta. Fui pra um banho quente e demorado com a porta do banheiro aberta. O corredor se encheu de fumaça e os espelhos se embaçaram, o que não fez mal já que eu não queria olhar meu rosto. Abri o guarda roupas e lá estava aquela sua camisa que eu usava pra dormir quando você não estava por perto. Atirei-a com cabide e tudo pra dentro do maleiro. Procurei uma roupa minha que não lembrasse nenhum momento com você, foi uma tarefa incrivelmente difícil.
Queria esconder aquele rosto triste, então me maquiei com absolutamente tudo do que dispunha ali, seria também um ótimo subterfúgio para não voltar a chorar, você sabe que eu odeio maquiagem borrada. Gastei um tempinho no meu cabelo, que sempre está horrível, mas hoje era um dia especial e não me importaria de brigar com ele até que eu achasse que tivesse ficado bom.
Passei um tempo procurando as chaves da porta da frente no meio da bagunça. Achei o MP5 jogado num canto, peguei um guarda-chuva e sai de casa pra caminhar pelas calçadas, por entre os carros... Coloquei os fones nos ouvidos e aumentei o volume... “Que é pra ver se você volta, que é pra ver se você vem...”.
Bom dia, meu amor. Hoje eu acordei com vontade de escrever alguma coisa bonita pra você. É que essa noite você tornou a passear pelos meus sonhos e nesse você sorria pra mim como na primeira vez em que eu te vi. Foi uma daquelas cenas de filme em que o resto do mundo se perde em alguns segundos e os nossos passos pareciam dados em câmera lenta embora meu coração estivesse disparado. Meus olhos foram procurando os seus, percorrendo a sua imagem e tudo o que eu podia pensar era “Meu Deus, é ela...”. Eu te alcancei num abraço breve que viria a ser o marco de uma história de amor que ia de encontro a todas as previsões das mais pessimistas criaturas, aquelas pessoas que tratariam a nossa história como aventura ou algo perecível. Bem, de qualquer forma ainda estamos aqui, não é? O tempo passou por nós e a menor distância que consigo sentir é entre o seu coração e o meu e tudo o que parece caber entre eles. Pensamentos perdidos, medos distintos e tantas outras coisas que me fazem esquecer das nossas canções. Talvez seja bobagem a minha, mas o que me faz lembrar são aqueles frios apaixonados na barriga que ainda sinto quando me lembro do seu rosto ou algo que já tenha me dito, quando sinto o cheiro do seu perfume no ar que me perpassa maldoso pelas ruas em que você não esta... Ai, esse cheiro que me devolve pros seus braços num quarto com pouca luz, inundado de uma felicidade que fazia parecer impossível um mundo aqui fora.
As lembranças do nosso passado tão próximo ainda me fazem sorrir, ainda me fazem superar qualquer momento de tristeza e os desespero que podem caber em mim. São sorrisos tão cheios de verdade que eu só posso agradecer a você por proporcioná-los, por me ensinar que a vida sempre nos prepara pra tornar a amar e ter me acordado pro resto do que eu tinha pra viver, que hoje é por merecer você. Sei que as vezes eu vou errar, ou quem sabe até muitas vezes, mas meu amor vai estar pronto pra recomeçar, pra te acolher, pra te fazer bem e pra tentar ser tudo de mais maravilhoso que pudemos sonhar no nosso começo cheio de pressa e ávido por felicidade.
Por mais que as coisas estejam diferentes agora, era só pra saber que eu te amo a cada dia um pouco mais e que não há o que eu não vá fazer pelo nosso bem. Por você, menina do meu pensamento... Por você, minha Kaia.
É estranho pensar em corpos próximos e olhos que não se encontram. Olhos que fogem procurando o sol, mas lá fora o céu está tão cinza... Ele parece pronto pra rachar e derramar chuva sobre os abismos que insistem em habitar meu peito. Ou será que sou eu quem os põe aqui dentro? Parece perda de tempo. Às vezes é melhor puxar as cortinas e não olhar pra fora, mas escondidos os olhos me resta o coração cansado, coração pesado... Resta a saudade de tudo que se pode querer pra si embora não se tenha força ou fé suficiente pra sonhar. Resta a pior decepção, aquela que se destina aos seus próprios olhos vistos num espelho feito de tudo em que nunca quis me tornar. Será natureza? E se for, o que é que transforma o homem? São questões pra responder quando eu crescer.
Eu queria escrever algo que te tomasse o fôlego por alguns segundos,
que fizesse você fechar os olhos e sentir minha mão, minha voz chegando como um sopro quente de felicidade, mas me faltam falas, ritmo e melodia. Não há exclamações alegres nem frases batidas que possam me ocorrer pra explicar o que é estar em mim nesse momento, ou será estar em você? É como se as telas em branco ganhassem forma e cor à medida que o tempo passa por nós, entre nós. E os cortes vão se fechando nas minhas mãos abertas prontas pra te apanhar. Meus olhos vão se acostumando a beleza dos traços do seu rosto que me contam segredos da sua vida. E o desejo cresce, cresce...Chega rente a sua pele pra te entregar o meu silêncio cheio de todas as palavras adornadas por sentimentos distintos que residem em mim por você. E todas essas cores estão de volta me trazendo antigas paixões e velhos sorrisos adormecidos, embebidos pela calma do tempo. Sensações conhecidas de tempos melhores em que vivi, das felicidades que já experimentei. É engraçada a forma prolixa que a gente acha pra dizer coisas simples como “Eu te amo”, não é?
Quero as cores desse meu sentir como lápis de cor para colorir os dias que se fazem tristes.Quero vontade pra olhar pela janela, ver a chuva fina cair sobre a copa das árvores e sentir a primavera chegando nas folhas cada vez mais verdes.Quero um vento quente nas minhas costas me obrigando a prosseguir quando quiser parar de caminhar.Quero saber admirar o brilho distante das estrelas, cada vez mais claras a medida que o sol se põe e aprender a jamais desistir das coisas por mais que pareçam irremediavelmente difíceis de alcançar.Quero conseguir afastar as nuvens que tentam encobrir os meus sonhos para poder vivê-los, sentir cada gota de fantasia que adoça as minhas realidades, quero desprender minha alma o suficiente para torná-los reais.Mas o que eu quero mais é ter você por perto, me deitar ao seu lado e ver a noite passar, correndo os dedos pelos seus cabelos.Eu quero ser forte pra manter você dentro de mim.